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A torcida ganhou o jogo PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Setembro de 2011 01:18

José Justo

Era uma quarta feira morta, daquelas que não caiu nenhum ministro, não houve ataques terroristas e a Alemanha não havia colocado nenhum pais europeu de joelhos ainda, pelo menos naquela semana! Em Pindorama, um assalto aqui, uma explosão de shopping ali, um doente morrendo na fila acolá... Nada que se destoe da rotina dos brasileiros.

No hemisfério norte do mundo, em Belém, o Basil jogaria com a Argentina pela enésima vez e como sempre, uns cem milhões de técnicos estariam a dar instruções imaginárias para ganhar um jogo fictício que se desenrola na cabeça de cada um. Um juiz seria chamado de ladrão e um coach seria chamado de burro algumas milhares de vez. Socos no ar de exultação tambem poderiam ocorrer, mãos na cabeça de desespero por bolas na trave ou raspando no poste tambem poderiam ser previstas. No mais, nada demais.

O time do Brasil, não era uma seleção, assim, com letras maiúsculas... Era uma seleção com os que não arranjaram empregos na Europa ou na Ásia, ainda, ou os que já haviam perdido os seus empregos em euro ou dólar.

Era a seleção que as pessoas não acreditavam, ou achavam que alguns estavam velhos demais para jogar bem ou achavam outros novos demais para jogar o suficiente.

Do outro lado, a eterna monstruosa Argentina... O exercito de Xerxes. A melhor do mundo, a poderosa. A mãe de Maradona, a progenitora do Messe e por ai vai com a megalomania dos nossos super argentinos penta campeões de nada. Mas, sempre e tradicionalmente perigosos, com suas 22 "liberrtadores" hahaha!.

A esperança de ver um jogo de noventa minutos era nula, pois, muitos já estavam imaginando um zero a zero sem fim, acabando na loteria dos pênaltis.

Mas, sem que o técnico escalasse, sem que alguem comandasse, um elemento impessoal e incorpóreo resolveu jogar tambem e entrou em campo.

Quando a televisão (e sempre ela!) comandou a torcida para cantar o hino nacional, ele, impessoal, incorpóreo e altamente sonoro, ganhou o jogo.

Tres dos velhos fingiam mascar chicletes para que alguem pensasse que eles estavam cantando (em alemão, claro!), pararam de se mexer e prestaram atenção na torcida. O que seria isso? Tres dos meninos que estavam a tremer os lábios fingindo cantar, foram as lágrimas, ao ouvir o brado do exercito grego na passagem do estreito das Termópilas.

Foi um grito heróico, um brado retumbante, que paralisou Guinhazu e seus asseclas e encheu de brios senhores ricaços,  negrinhos ingênuos e meninos imberbes, que, correram como se estivessem em uma batalha, desafiando o peito à própria morte. Puxaram seus talentos e se bateram como se guerreiros fossem e como se estivessem vestindo apenas uma armadura, formada por ondas, magotes, levas e levas de energia renovável a tocar a turbina de um motor imaginário que empurrava seus corpos para frente,

E eles, de quissamã, mar paulista ou marapé, entraram em campo como se estivessem surfando em uma onda sonora que se ouviria por todo o tempo ao longo da galáxia de novemta minutos, a empurrá-los para a frente, com seu jargão a dizer que era ao som do mar e a luz do céu profundo, mas, que, para eles tinha apenas uma sílaba, um verbo: “vai”.

Eles foram, venceram e choraram, junto com o décimo segundo jogador que fez seu maior esforço ao cantar, sem orquestra ou maestro, a música que eles sabem de cór, de tanto ouvir pelos estádios e pelas escolas. E os jogadores ouviram do Ipiranga às margens pláscidas e receberam os passes que vinham de fora das quatro linhas e correram em direção ao gol.

Muitos choraram novamente ao perfeber que ganharam. Correram para a torcida e agradeceram o esforço e quem estava longe, do outro lado do LED depois do satélite e da microonda hertziana, não só agradeceu, como se emocionou com um tão belo espetáculo digno da regência de Carlos Gomes. E foi dormir feliz e sonhou que estava voando!


 

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