Início | Noticias | A Ponte do Guaíba e o Sargento Agapito
 
A Ponte do Guaíba e o Sargento Agapito PDF Imprimir E-mail
Seg, 06 de Dezembro de 2010 16:09
A Ponte do Guaíba e o Sargento Agapito
 

José Justo

 
No boteco do Gumercindo e da Manoela, no Rio de Janeiro, tinha uma freguesia fixa de fazer inveja a novela das 8: cada tipo marcava território e estilo, um só matava a cinco na caçapa do meio, outro colocava o chinelo com tiras de cores diferentes em cada pé, outro ainda, dava dois goles pro santo... E tinha o Agapito de Moura, um sargento da Marinha do Brasil que foi aposentado precocemente por ter mergulhado em um barril de cachaça e ficou muito inchado... Mas, o motivo mesmo da aposentadoria, não foi isso, é que ele se recusava a sair do barril!

Agapito atraía não só porque ganhava bem, jogava mal e apostava muito. Ele tinha sempre uma rodinha em volta dela para ouvir as suas “histórias de marinheiro”, as quais, quase sempre, não se tinha como acreditar ou duvidar, tal era o nível de compreensão da média da platéia, formada em sua maioria de pessoas simples da periferia.  A sua história favorita era a da Ponte Pênsil de Porto Alegre: “não foi mole embicar a fragata e passar ali, me senti um Ulisses”... Aí, neste ponto da ignorância alheia, ele tomava meia garrafa de Praianinha só para explicar quem foi o Herói Ulisses, da Epopéia de Homero. Sabia tudo o Agapito!

Para ele a profissão mais exigente do mundo era a de “Prático do Guaíba”, “pois, se ele errar, babau. Escangalha a ponte e adeus embarcação!” Enchia o peito e soltava o bafo: “habilidade igual não há! Nunca houve um acidente em mais de vinte anos de operação da ponte! Viva o Prático da Ponte de Porto Alegre!” Estava garantida a sardinha frita da Manoela.

Isso foi no começo dos anos 60. O tempo passou, Agapito sumiu, eu fui voar e um dia aterrissei em Porto Alegre, a primeira visão que tive foi da ponte e lembrei-me do Sargento Agapito. Com os pés no chão, fui a um balcão de informações  e perguntei como fazia para ir até a ponte pênsil. “Ponte pênsil?” perguntou-me uma gordinha do outro lado do balcão como se estivesse olhando para um ET. Como é que eu iria explicar para ela? Mandei: “uma ponte que levanta para os barcos passar por baixo dela” expliquei enfatizando o “por baixo” para ela não pensar que barcos voam no meu planeta de origem. “Ah! A ponte do Guaíba!” “Amauri, como é mesmo o nome da ponte do Guaíba?”, “Ponte Getulio Vargas, por quê?” Amauri era um motorista de taxi que ficou meu amigo e até hoje, passado quase 40, de vez em quando tomamos um mate lá em Canoas, onde ele vive até hoje. “Viu, moço? Não é ‘ponte pênsil’. É ponte Getulio Vargas! O Amauri é taxista e tem um atlas de Porto Alegre de cór”.

Amauri me levou até a ponte e dei sorte: em 40 minutos apontou um bólido no começo do canal, os carros pararam, o vão da ponte subiu vagarosamente, algumas pessoas saíram dos carros e ficaram admirando e me emocionei ao lembrar do Agapito e sua fragata. Deu até vontade de tomar uma cachaça!

Procurei o tal de Prático. Ninguem sabia quem era. Nem o Amauri! Mais tempo se passou. Vim morar no Rio Grande so Sul e hoje conheço bastante coisas da capital, um monte de gente de tudo quanto é profissão, credo e clube, mas, nenhum é “prático” ou conhece um “prático”, mas, sei que existe, o Agapito não mentiria para nós. Creio que o prático é tão importante que a Marinha deve mantê-lo escondido e tratado nababescamente, pois lá se vão 50 anos e pelo que eu saiba e pelo que me contam, os barcões nem triscaram na ponte até hoje. E ela continua linda. No por do sol então, nem se fala!

Mas, tem um monte de coisa a reparar sobre esta ponte, por exemplo: sua valorização, sua conservação, a conservação do seu entorno - um lindo cartão postal visto de cima, com aqueles anéis de acesso – seu aproveitamento como ponto turístico, pois ela é uma das maravilhas da engenharia mundial, e está no lugar errado – pois muitos ou quase todos a chamam de ponte do Guaíba, porem, ela fica no delta do Jacui. E é pênsil, sim senhor, como dizia o Sargento Agapito, da Marinha do Brasil.

Saudade do Agapito, ele sim, sabia, lá do Rio de Janeiro, valorizar a Ponte! O nome dela pode ser qualquer um, que está valendo.

Nestes tempos, fala-se muito em modernizar, conceder, reformar, aterrar e escavar a cidade por causa de umas duas ou tres partidas de futebol que vai ter por aqui daqui uns anos. Só falta algum energúmeno querer acabar com ela em nome da modernidade, fazendo uma grande desfeita ao Agapito e por extensão à história e a beleza desta cidade.


Front Desk é um boletim informativo com assuntos de interesse da Cadeia Produtiva do Turismo do Sul do Brasil.
 

Apoio

Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Joomla Templates by Joomlashack