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Os sinos não dobram em Beverly Hills PDF Imprimir E-mail
Sáb, 07 de Maio de 2011 19:28
José Justo

Quando eu era apenas um jovem com a cabeça cheia de sonhos, viajava pelo interior da Alemanha e parei em uma pequena cidade chamada Buttenheim, no meio das montanhas. Era uma época fria, na chegada da cidade eu vi muitas flores, alguns vinhedos e também algumas plantas que eu não consegui identificar e até hoje não sei o que era, mas, era muito bonito aquele campo relativamente vasto, coberto de uma plantação de pequena altura, uniforme e com flores brancas.

Não entendia nada que as pessoas falavam, mas eles eram sorridentes e amáveis. Passeei, fotografei, brinquei num parquinho e almocei em um pequeno restaurante, uma comida muito boa e que ainda não aprendi a pronunciar o nome de tão comprido, começa com schweinebratenpflaumen, ou algo parecido... Dormi em uma pequena pousada de estilo medieval e acordei com o dia amanhecendo pelas badaladas de um plangente sino que dobrava na torre de uma igrejinha de pedra do outro lado da praça onde eu estava. Pensei: “lugar ideal para se viver, pena que não entendo nada do que eles falam!”

O tempo passou.

Muito tempo depois, por um motivo qualquer, eu estava viajando pela serra do Rio Grande do Sul e parei em uma pequena cidade dentro das montanhas chamada Gramado, trazia duas crianças pela mão e um monte de interrogações na cabeça. Era uma época fria, mas, lembro-me bem, não era inverno, havia muitas flores e as pessoas eram muito amáveis. Era uma cidadezinha em alguns aspectos muito parecida com aquela lá da Alemanha, inclusive com muitas pessoas de origem alemã, mas, dos alemães antigos, do século 19. A comida era muito apetitosa e a pousada em que nos hospedamos não era igual a de Buttenheim, mas, o café da manhã é inesquecível e acordamos de manhã com os sinos da igreja de pedra dobrando como que a nos chamar para a vida. Pensei: “Lugar ideal para se viver! E eu entendo quase tudo que eles falam!”.

Dito e feito! Não fomos mais embora, vivemos nossas vidas entre canteiros de flores, mesas fartas e amigos inimagináveis em outro lugar. As ruas tranqüilas as praças floridas, os pássaros cantando nas árvores pela manhã e o café fumegante no bar do Belotto fizeram desta cidade o meu paraíso na terra...

E o tempo passou.

Vinte e dois anos depois, as esquinas estão cheias de prédios, as ruas cheias de carros, muita gente, a cidade dobrou de tamanho, os cafés se sofisticaram, as casas do interior da Alemanha foram trocadas por sofisticados bistrôs de Paris, aquelas senhoras simpáticas e sorridentes, que nós chamávamos de Oma, que me serviam deliciosos apfelstrudels e chocolate quente com canela, foram trocadas por chefs famosos que criam pratos internacionais com nomes pomposos e porções faltosas. E meu “torpedo” do Beija Flor foi transformado em uma fila do bifê por peso, na fila que não anda e que esfria o peito de frango com shoio.

A rua florida virou avenida, A cidade agora lembra muito mais Beverly Hils com suas calçadas desenhadas e galerias sem fim, que as casas do interior da Alemanha no interior do Brasil, com suas plantinhas nas janelas. E o sino não bate mais na torre da igreja de pedra.
 

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